talita_05.png

A palavra que mais me marcou na vida foi uma frase anotada aleatoriamente de um livro, que dizia: “Deixar desaparecer todo o sentimento de transcendência é sinônimo de decomposição da vontade humana, porque o pensamento utópico faz parte da essência do ser humano: imaginar mundos melhores e lançar-se em busca de sua realização.” Para mim, o mundo melhor sempre será o da justiça. Mesmo depois que perdi qualquer tipo de fé, o desejo de justiça continuou me consumindo. E a justiça é radical, desconhecida.

"Todas as pessoas que amam o impossível procuram, instintivamente, fazer isso: apostam no desconhecido para ver o que dá. Elas não buscam a felicidade apenas na realização dos desejos. A felicidade é muito mais: é a procura de uma totalidade, de um absoluto. Acho que isso só acontece com as pessoas que não foram felizes. Elas têm, mais que os felizes, o instinto da totalidade". Dos abismos. Do êxtase. Não se acomodam na felicidade. Por isso concordo com Toni Morrison quando ela diz que ser feliz é muito chato. É de fato muito pouco. Fecha-nos para a totalidade que é ordem e desordem, felicidade e infelicidade.

Minha abertura ao reconhecimento do tutano do Eu começou a partir da minha abertura para o futuro com o desejo de entender a realidade. Para o desejo de criar. E posso dizer que esta criação foi para mim sempre mais satisfatória que qualquer felicidade pessoal. O orgasmo da criação é mais intenso que o orgasmo sexual. Mas só entende isso quem cria. Por isso a vida inteira fui atraída pelo impossível. Só o impossível abre o novo... Só o impossível cria.

Criei, embora não saiba ainda muito bem o intuito disso. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: Talita está muito feliz porque finalmente foi desiludida. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.

Não sabia que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. Pois, aqui está: plantei a semente, no luar quarto-crescente, no meu arquétipo de mãe. Que essa criação consiga atingir corações e mentes e acalentar as noites frias de desilusões para um despertar revolucionário.

Em vez da felicidade, eu queria fazer o que tinha de ser feito.

Transbordamentos recentes

Cansada de escrever em Arial 12, em texto justificado e em linguagem acadêmica, aqui, ignoro gêneros textuais, abdico de normas ABNT, transgrido a ideia de que não é possível escrever apenas as próprias memórias, angústias e anseios. Se te tiram os sentimentos, o que sobra de você? E se te tiram tudo, mas deixam apenas os sentimentos, quais deles você conhece? Em quantos deles você reconhece a si? O que você vê nos seus abismos? Aqui estão alguns dos meus transbordamentos: