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  • Talita Gantus

A cidade estanca, a cidade estrofe

Atualizado: 31 de Mai de 2020

Lá embaixo nas ruas a cidade desperta mais uma vez! Quem recolherá os entulhos dos nossos dias? Quem observará as histórias impressas e registradas nos muros que eles querem acinzentar? Quem protegerá aqueles e aquelas que dormem em casas erguidas que se esmorecem com as intempéries da vida? Quem fará poesia das empenas dos prédios que gritam os gritos marginalizados agora grafitados; dos quartinhos embutidos e abafados onde mulheres e homens e mulheres e mulheres e homens e homens trocam promessas e líquidos e escárnios antes do amanhecer?


Ela mesma: a cidade que se ergue sobre as ruas asfaltadas ou cobertas de paralelepípedos que servem de palco para os seus próprios filhos: os que se banham nas águas das fontes nas praças públicas; os que mergulham nos rios infectos que cortam as marginais das grandes capitais; o vendedor ambulante do centro da cidade com suas bugigangas que não salvam nem a ele nem a ninguém; o catador de papelão que disputa seu espaço junto aos carros que se acham donos das ruas; eles e todos que catam, cantam, olham e vendem tudo e nada ao mesmo tempo.


Os que subiram das senzalas urbanas nos apertados porões das imensas mansões direto para as grandes avenidas da metrópole; os que pulam as sete ondas no dia trinta e um de dezembro de todos os nossos dias, e que esperam ou não esperam que o próximo ano seja melhor ou não seja ou seja como todos os nossos dias, vida e morte, e que agradecem pela praia ainda pública e democrática, embora não saibam bem o quê isso significa. Os que descem e sobem e sambam ladeiras nos carnavais de pelô, de Belô e de Olinda, de retratos urbanos que se desenham como telas que emolduram vida e morte, vida e festa, vida e graça.


As cidades catatônicas que observam seus filhos que falam em política e jogam lixo no chão; que falam em veganismo e se alimentam de produtos empacotados das prateleiras de grandes mercados; que falam em democracia e trancam seus cachorros o dia inteiro num apartamento de trinta metros quadrados e saem sem hora pra voltar; que chamam as empregadas de família e não se importam com o tempo que levam pra chegar ao trabalho, e se elas não folgam no sábado porque eles não podem limpar o que sujam pois precisam vender seu tempo para os escritórios dos grandes prédios espelhados no centro da cidade para pagar as empregadas.


A cidade ouve, vê, corre, escorre entre os dedos do alvorecer ao entardecer. Dentro e fora da imagem retratada no recorte que mostra muito e pouco:


a cidade estanca, a cidade estrofe.

Foto: Bruno Fernandes

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