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  • Talita Gantus

A cidade sussurra

Atualizado: há 6 dias

Na cidade

nos pedestres que andam de passagem

nos deuses

nos transeuntes.

Onde está o nosso olhar?


Capitalismo

neurose

a ansiedade que agoniza

diante da mediocridade.


Eles querem acabar com tudo

mas poesia não tem fim

por mais que os transeuntes tenham.


Mata-se a cidade

mas não se calam as empenhas

dos muros grafitados

que gritam a realidade.


As cidades existem

pelo lado de fora

e pelo lado de dentro.


As fumaças negras dos carros

que sobem sob o céu azul

sobre nossas cabeças,

elas não têm fim.


Já as crianças que não têm escola

têm seu fim predestinado

e servem de sacos de pancada ao sistema

que responde com violência e paixão

exercício para o impensável.


As cidades estão a postos

e essas crianças também.

O dia a dia revela o grão

o pão

e o chão

de quem dorme na rua e não tem nada disso:

nem grão

nem pão

nem chão.


Os corpos caídos pelas calçadas

não nos pertencem.

Os necessitados

mortos-vivos

são os outros.

As imagens retiradas da cidade são um veredicto

de recortes que nos representam,

embora gostaríamos que fosse diferente.


Os monstros

os deuses

os transeuntes.

Onde mesmo está a nossa preocupação?

Dentro e fora da imagem vazada

é a cidade quem vê.

A cidade tem alma e sussurra baixinho:

ou você percebe e me decifra

ou te devoro

em trinta

segundos.


Foto: Talita Gantus

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