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  • Talita Gantus

A máscara do racismo

Atualizado: 4 de Out de 2020

Lá nas periferias, nas favelas, está a cidade achatada, espraiada, trôpega pela falta de bom senso de quem lá nunca pisou. Inerte, sufocada sob fardas de caveiras, coturnos e rifles que lhes miram na cabeça. Lá na cidade onde cruzes eternamente presentes se erguem onde os corpos negros tombam e despejam seu sangue, tão vermelhos quanto dos brancos. Lá na cidade desassossegada diante do destino, muda, contrariada de todas as maneiras possíveis. Incapaz de prosperar porque as mãos do Estado lhes arrancam o sumo da terra, impedindo que floresça a flora da paz. Lá, onde se vive a democracia que legitima o etnocídio e consolida a necropolítica. Lá está a cidade podada, perplexa, reduzida pela dor do silêncio que reina depois do estrondo da guerra. O silêncio que alerta que é hora de sair para recolher os cacos.

Lá, onde derrubaram João Pedro, Ágatha Félix, Kattelen Gomes, Kauê dos Santos, Marcos Vinícius, Kauã Rozário, Kauan Peixoto, Jeniffer Gomes e tantas outras crianças que não puderam ter a chance de viver para ver a mudança. Durante sua luta incessante pela liberdade dos corpos marcados pela cor da pele, Malcom-x afirmava no século passado algo que ainda não superamos “essa democracia falhou com o negro”. Falhamos!


O lá na verdade é aqui, porque não é possível não tomarmos parte disso.


O negro não deve mais ser colocado diante deste dilema: branquear ou desaparecer. Ele deve poder tomar consciência de uma nova possibilidade de existir. Aos brancos, não basta apenas não ser racista. “É preciso ser antirracista”, já disse Angela Davis. E isso significa agir no sentido de uma mudança das estruturas de opressão: “o problema não é mais conhecer o mundo, mas transformá-lo”, ressoa a voz atemporal de Marx. Pertenço irredutivelmente a minha época. E é para ela que devo viver. O futuro deve ser uma construção sustentável da pessoa existente. Esta edificação se liga ao presente, na medida em que coloco-o como algo a ser superado.


A dialética hegeliana tem três momentos: o “ser em si”, o “ser outro” e o “retorno a si”. Todavia, a ontologia do ser para-o-outro torna-se irrealizável em uma sociedade colonizada. A ontologia não permite reconhecer o ser do negro. Pois o negro não tem mais de ser negro, mas de sê-lo diante do branco. Se fecho o circuito, se torno irrealizável o movimento nos dois sentidos, mantenho o outro no interior de si. E o negro, então, não é reconhecido como ser social. Não é reconhecido como semelhante. E é por isso que os corpos negros que tombam no chão não causam comoção, nem revolta coletiva.


O que espera-se dos brancos antirracistas, e que anuncia-se pela poesia de Aimé Céisare, é “que o corpo, assim como a alma, evitem cruzar os braços em atitude estéril de espectador, pois a vida não é um espetáculo, pois o mar de dores não é um palco, pois o homem que grita não é um urso que dança...”


Foto: Bruno Itan


Foto: Bruno Itan


Foto: Bruno Itan


A sociedade não escapa à influência humana, é pelo humano que a sociedade chega ao ser. A sociedade é racista ou não o é. O branco, incapaz de enfrentar todas as reivindicações, se livra das responsabilidades. Fanon denomina esse processo de 'repartição social da culpa'. Eu não sou racista, bradamos no peito, nós, brancos. Sem entender que não é sobre nós, ao menos dessa vez. Essa não é uma questão individual.


Experimentei o caminho praxiológico da vivência para o entendimento da teoria. Alguns anos atrás, ao pegar o metrô da Rodoviária do Tietê para o Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, notei que, na medida em que me aproximava da periferia, os transeuntes no metrô iam escurecendo. Ou seja, quanto mais perto da periferia, mais pessoas negras.


Naquela época eu ainda não conhecia a cidade e a visão que tinha dela era a que os Racionais MC’s me traziam pelo rap. Ao chegar em Salvador, para onde eu peguei um voo, tive um choque de realidade ao desembarcar na cidade com a maior população negra do Brasil. Quando, à caminho da praia, me vi em um ônibus em que eu era a única pessoa branca presente, por um momento me perguntei se eu tinha pegado o ônibus errado e se eu estava indo pra algum bairro desconhecido e perigoso. É a estigmatização que liga a cor da pele a um lugar de segregação sócio espacial. O inconsciente coletivo é o conjunto de preconceitos, mitos, atitudes coletivas de um grupo predeterminado. É, portanto, cultural, adquirido. É o que Fanon chama de ‘imposição cultural irrefletida’.


Na sociedade, os brancos ocultam os sintomas de racismo porque isso lhes traz certos benefícios. Essa construção os liberta da angústia de se defrontar. É a ‘psiconeurose narcísica’ de que fala Freud, a exacerbação dos mecanismos de defesa. Preferem viver o ‘mito da democracia racial’; pois, no momento em que fala de alguma coisa negando-a, ela se revela como desconhecimento de si mesmo. Não me considero racista, portanto, finjo que não o sou. Lélia Gonzalez denomina essa sintomática racista como a característica da ‘neurose cultural brasileira’.


Se é verdade que a consciência é atividade transcendental, devemos saber também que essa transcendência é assolada pelo problema do amor e da compreensão. O ser-humano é um SIM vibrando com as harmonias cósmicas. Desenraizado, disperso, confuso, condenado a ver dissolverem, uma após as outras, as verdades que elaborou, é obrigado a deixar de projetar no mundo uma contradição que lhe é inerente.


É através de uma tentativa de retomada de si, pela tensão permanente de sua liberdade, que os homens e as mulheres podem criar as condições de existência ideais em um mundo humano. “Ô meu corpo, faça sempre de mim uma pessoa que questiona.”



Inspirada por: Peles Negras Máscaras Brancas (Frantz Fanon)


Foto: Bruno Itan

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