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  • Talita Gantus

Processos

Atualizado: 31 de Mai de 2020

Processo de transcendência, catarse do eu egoico. Embora as palavras pareçam bonitas, e a liberdade que se anuncia da descoberta de si mesma também possa ser, a vivência disso é bem mais complexa. Isolada e sozinha há 2 meses, entrei em contato comigo como nunca antes tinha me permitido. Me vi obrigada a me confrontar em minhas dores, questionamentos, inseguranças e propósitos.


Por mais que a gente esteja cercada de pessoas, tenha alguém no quarto ao lado, dividindo a cama, por mais que a gente tenha com quem contar, os nossos momentos de auto descoberta, em que dá aquele plin, são só nossos. As nossas transformações acontecem no nosso íntimo e afetos são incompartilháveis. Ninguém divide a angústia, a tristeza, a alegria em partes iguais e as distribui pra que outras pessoas possam sentir e o fardo seja mais leve. E descobrir isso me fez entender e aceitar o porque de muitas vezes eu ter me sentido angustiada ou triste mesmo estando cercada de amor.


Uma sensação bem esquisita de se sentir sozinha mesmo estando acompanhada. Mas se sentir sozinha estando sozinha há tanto tempo é bem diferente. Outro entendimento de mim mesma tem brotado aqui dentro, mas tenho lidado com ele bem aos pouquinhos. Esses dias fiz 30 anos e esperei por esse ano redondo como se eu fosse atravessar um portal.


Passagens sempre foram muito significativas pra mim, que fosse o início de um ciclo menstrual, um novo ciclo lunar, o ano gregoriano que vira. É sempre um sentimento de recomeço que me faz sentir grata por pensar que, apesar de qualquer coisa, o que vem pode sempre ser melhor. Ontem foi dia das mães e o dia foi bem estranho e amuado por aqui. Chorei algumas vezes e fiquei feliz por ter conseguido, pq geralmente preciso preparar uma cena pra que esse processo aconteça. Muitas vezes gostaria de esvaziar angústias em forma de lágrimas, mas nem sempre é fácil.


Eu choro muito por coisas bem bobas. Lembro de quando eu tinha uns 10 anos e minha mãe chegou pra me vestir o pijama e me pegou chorando rios de lágrimas vendo Chiquititas. Ela me repreendeu: "seu pai vai te proibir de ver esse programa se te ver chorando desse jeito." Outra vez, na mesma época, passando um filme bem dramático na sessão da tarde que sempre me deixava em prantos, minha mãe ligou pra casa da minha tia pra saber se eu tava assistindo, e me alertar que eu ficaria mal, mais uma vez, pelo mesmo filme de sempre. Mas na medida em que a vida passou e tanta coisa aconteceu, eu vesti o figurino performático por sempre ouvir as pessoas falarem que eu era uma mulher forte. Que eu nem sempre queria ser. Mas essas coisas reverberam no nosso inconsciente de um jeito bem doido.


Hoje eu tenho uma dificuldade enorme de chorar pelas minhas próprias dores, mesmo quando não tem ninguém olhando pra avaliar quão forte pareço ser. Introjetei isso de um jeito problemático. Pra aparentar ser forte eu enfiei todas as minhas dores dentro de um saco no fundo de mim mesma e nunca mais ousei abrir. De vez em quando eu buscava uma ou outra porque, por mais que a gente evite, nosso eu de hoje é bastante do eu do passado, então muita coisa vem à tona. Outras eu fui evitando o quanto deu. Mas nas últimas semanas tenho tentado revirar um pouco do passado pra entender mais de mim, e viver esse processo tá sendo muito! Muito, sem adjetivo: ainda não encontrei um que descreva.


Uma das categorias de pesquisa da minha tese de doutorado é resiliência. Existem inúmeros significados pra essa palavra, dependendo de onde você parte (ecologia, física, sociologia, filosofia, psicanálise). No meio científico, de fato, existe uma guerra semântica. Contudo, palavras podem ser prisões. O entendimento da resiliência pra mim é o que tem de mais marcante nos meus estudos, mas eu definiria, de modo bem geral, como a capacidade de voltar à condição de equilíbrio após uma perturbação. O equilíbrio, como tudo na natureza, não é estático, e não necessariamente cabe no mesmo cenário de antes. Em palavras mais poéticas, é como "a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta."


Se eu fosse citar como qualidade, eu escolheria a resiliência pra adjetivar a nossa incrível capacidade humana de aprender a lidar com as adversidades da vida. Substituiria a força. A resiliência não romantizada, claro. Como materialista, faço questão de frisar que existem as condições materiais que precederam o estar para ser. Em outras palavras, não brotamos desse jeitinho do nada, existe um passado e as condições que nos guiaram até o presente. E, entrar em contato com tudo isso, como cientista, me ajudou a refletir sobre minha vida e minhas relações interpessoais, num contexto bem diferente do que eu pesquiso.


Digo tudo isso porque ontem foi dia das mães. Em geral, não me sinto triste nesse dia. Penso ser uma data tão capitalista quanto o dia das crianças, dos pais, em que a simbologia comemorativa se esvai quando a publicidade toma conta e transforma datas em mercadoria. Herdei isso do meu pai, que era uma pessoa bem avessa a essas festividades. Mas é um dia muito importante pra muitas mulheres, e eu respeito isso!


Tive uma avó paterna, que era minha madrinha, que foi responsável por mim, durante grande parte da infância, pra que minha mãe pudesse trabalhar. Tenho uma irmã que dividiu com minha mãe os cuidados do meu irmão, de mim e da casa, e que assumiu esse papel sem questionar, aos 12 anos, como se não houvesse outra alternativa. Tenho uma avó materna que largou sua casa pra ir morar comigo quando minha mãe faleceu, quando eu era ainda adolescente. Essa mesma avó deu duro num restaurante (que tinha o melhor PF da BR262) pra que minha mãe pudesse fazer pedagogia. Tenho uma e única tia, irmã do meu pai, que ressignificou nossa relação de um jeito incrivelmente generoso quando meus pais vieram a faltar. Tenho primas que fazem de tudo pra transformarem ausências em presenças cheias de amor e que tornam a minha vida mais leve. E uma sobrinha já moça que me faz querer deixar esse planeta melhor, ou pelo menos de pé, pra que ela possa ser livre.


Sem essas mulheres exercendo esses papéis que permitem a minha reprodução social, que me dão garantias de que, por mais que o mundo seja cruel, existe amor, eu jamais estaria onde estou hoje. Elas são essenciais.


Li um livro uma vez chamado Terra das Mulheres. É uma distopia de uma ilha habitada só por mulheres, em que as crianças eram criadas em coletivo e cada mulher assumia um papel na criação, todas dando amor como se tivessem gestado. Hoje eu fiquei pensando "quantas mulheres foram preciso pra Talita dos 30 chegar aonde chegou?!"


Eu fiquei pensando tudo isso depois de entender que, minha dificuldade em falar da minha mãe, não é tanto pelo fato dela ter partido. Eu aprendi a lidar com a morte e a enxergo como um rito de passagem natural. Mas ainda não aprendi a lidar com o modo como se vive. E minha dificuldade em falar da minha mãe é justamente por ter me feito forte porque sempre disseram que eu era, e eu criei um bloqueio. Porque a gente não fala sobre nossas dores?


Minha mãe era um passarinho preso na gaiola e minha ânsia de liberdade e coragem em alçar vôos arriscados tem muito a ver com isso. Também é onde minha luta feminista se ancora. Lidar com essa descoberta não tem sido fácil, mas tem sido bonito. Gosto de pensar que somos resilientes ao invés de fortes, porque tudo bem envergar, ninguém precisa estar sempre firme como uma árvore e as pernas vacilam mesmo às vezes. A caminhada é longa! Ouvi que viramos a sociedade do consumo: muito se fala das séries que viu, dos livros que leu, das cidades que conheceu, muito sobre o que se consome e pouco sobre o que se sente.


O que você sente quando fala da morte?


O que você sente quando toca sua música favorita?


Acho que, quando a gente não fala muito sobre o que sentimos, acabamos perdendo nossa essência e os momentos de descoberta que vêm quando expomos nosso âmago e o mais íntimo de nós. Pensar sobre isso tem me feito enxergar o mundo, a mim e meu passado de outra forma. A sociedade e as consequentes relações sociais não precisam ser como são, se assim não quisermos. Como diria o sábio barbudo: o que interessa não é mais entender o mundo, mas transformá-lo. Claro, o entendimento, portanto, se faz necessário. Mas é possível usá-lo pra mudar o que precisa ser mudado.


De tudo isso que aprendi e narrei sobre mim e meus processos, trago pro coletivo a reflexão: o quão prejudiciais podem ser os sentimentos reprimidos?


Por que esse tabu pra falar de dor e de morte?


Foto: Bruno Fernandes

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