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  • Talita Gantus

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Meus pais pertenciam à classe trabalhadora. Minha mãe era professora do primário na rede estadual lá em Manhuaçu. Meu pai já foi operário de uma cooperativa de laticínios que depois foi incorporada pela Parmalat. Foi quando ele saiu de lá e passou um tempo desempregado. Foram tempos difíceis pra minha família pelo que sei de ouvirem contar. Mas eu não era nascida nessa época. Depois meu pai virou bancário numa cooperativa de crédito. Pode-se dizer que os bancários no brasil, hoje, têm condições de trabalho um pouco melhores porque eles têm um sindicato bastante forte desde sempre. E porque eles têm uma mínima noção de quem são os banqueiros, seus patrões.


Mas meu pai nunca foi militante. Na real eu nem sei se tinha sindicato em Manhuaçu naquela época. Ele era um ouvinte atento e exercitava a escuta ativa. Era quase uma enciclopédia ambulante de conhecimentos herdados da história oral e das mesas de buteco. Não fez faculdade, mas era um leitor voraz de ficção. Caminhava a cidade toda à pé, todos os dias, parando nos bares da rota pra tomar uma. Bem cara de cidade pequena, que hoje já não é tão pequena assim. Nessa caminhada sagrada e diária ele encontrava e conversava com todo tipo de gente. Gostava muito de literatura, romance e histórias de faroeste. Esse fato me passou despercebido por muito tempo, mas hoje tenho certeza de que seria uma característica importante num processo de análise.


Da minha mãe eu herdei o apreço pela música. Ela gostava muito de filmes mas esse não é um hábito muito sobressalente em mim. Sempre gostei mais dos livros porque eles me davam a possibilidade de exercitar a imaginação e dar vazão para o fluxo de ideias que passam na minha mente, inquieta, sonhadora e questionadora desde sempre. Meu hábito de entrar no meu mundo enquanto leio veio do meio pai. E meus gostos por leitura são muito variados. Mas, independente do gênero, os livros sempre me possibilitaram alcançar um lugar ainda não visitado. Como se eu acessasse um dispositivo que muda algo em mim. Penso que eles alimentam grande parte das minhas utopias e preenchem uma parte do vazio existencial passível de ser preenchido. Ou me fazem aceitar que o vazio é também necessário.

Num conto de Nietzsche, Zaratustra, aos 30 anos, se afastou da sua pátria para se enclausurar na montanha. Depois de um tempo, Zaratustra “enfastiado da sua sabedoria, como a abelha que acumula demasiado mel”, resolve sair e falar ao povo. Mas Zaratustra encontra dificuldades em se fazer entendido de suas epifanias. Não tenho conclusões filosóficas disso, apenas a reflexão de que talvez Zaratustra tenha passado muito tempo preso em suas próprias ideias e por isso foi tão difícil sua interlocução com a massa. Como afirmou Marx, ao questionar a filosofia idealista em que se desce do céu à terra, para os materialistas, como ele, se ascende da terra ao céu. “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência”, escreveu. Eu acho essa ideia incrível e, mais do que aprender pelos livros, o processo de aprendizagem pela reflexão da experiência e história oral - “da terra ao céu” é transformador. Refletir sobre a vida concreta quando se lê uma teoria, ou uma poesia, ou uma história que lembra elementos da vida real - narrada oralmente e experienciada sem ensaio -, é de fato fantástico. E é o que me faz ter fé que a humanidade não está fadada ao fracasso.


Como me disseram uma vez, o poder dos livros é o poder de um gênio preso numa lâmpada. É a ação concreta que transforma a consciência e pela consciência. O contexto em que ouvi, no caso, era meu orientador se referindo à universidade, com “poderes de gênio preso em uma lâmpada”, e com dificuldades para transformar a vida concreta.


Descobri quem era Lélia Gonzalez ano passado, quando comecei a dar aulas no cursinho popular homônimo em sua homenagem. Foi quando tomei conhecimento sobre o pensamento e os escritos de Lélia, e que me levou a tantas outras mulheres inspiradoras. O cursinho foi minha primeira experiência como professora, apesar de ter dado monitoria na faculdade e participado de projetos de educação não-formal.

Não me esqueço do primeiro dia de aula, de todos os olhares de julgamento direcionados a mim (que pode dizer muito ou não dizer nada), e daquele momento tenso e embaraçoso de quando não há intimidade e o silêncio se torna constrangedor. Acontece quando você para de falar e todo mundo te encara calculando sua próxima frase. Na medida em que o tempo passa e a gente se entrosa com a turma, a relação muda. Percebi isso também enquanto aluna e colega de turma. E posso afirmar que a prática pedagógica, a escuta ativa e o relacionamento nesse processo me transforma sempre. Não me esqueço também do dia em que, no fim de uma aula, uma aluna negra me lançou essa: “professora, o que é meritocracia?”.


Eu, que apesar de sempre ter tido que correr atrás do meu, consegui entrar na faculdade enquanto meu pai era vivo e pude fazer um pré-vestibular sem ter que trabalhar ao mesmo tempo. Lá dentro, depois que ele faleceu, já sem minha mãe, fui pulando de auxílio em auxílio e de bolsa em bolsa, monitoria, projetos, extensão, estágio, até o doutorado… além de alguns bicos pra juntar grana pra fazer minhas coisas ou pagar os boletos. É certo quando dizem que se manter numa universidade é tão mais difícil quanto entrar nela. Mas eu nunca trabalhei como assalariada como meus alunos do cursinho, que ralavam durante o dia e frequentavam as aulas à noite pra concorrer a uma vaga na universidade pública, sedentos por derrubarem o chefão chamado “vestibular”.


Ali estávamos nós, num verão seco do interior paulista, numa sala sem janela e sem ventilação, suando pelo calor do retroprojetor que abafava ainda mais a sala. Lá estava eu, dando aulas pra classe trabalhadora e respondendo àquela aluna o que era meritocracia, enquanto eu mesma lembrava do quanto a Unicamp parecia distante de mim quando saí de Manhuaçu pra estudar. No caminho de volta pra casa naquela noite, durante as 3 baldeações que eu fazia no transporte público, fui observando as pessoas que passavam por mim e essa cena ecoou na minha cabeça enquanto eu contava quantas pessoas negras tinham no meu círculo da pós-graduação na Unicamp.

Eu não lembro de ter 1 pessoa declarada negra na minha sala na UFOP, quando entrei em 2009, apesar de ser uma universidade muito menos elitista que a Unicamp. Lembro que eram 6 mulheres e 30 homens na minha turma. Saí daquela aula no cursinho transformada, como saio de todas. Experiências como essa, junto com as mensagens que recebo, me movem a buscar conhecimento pela simples possibilidade de partilha e da responsabilidade de quem exerce a pedagogia crítica. Aquelas aulas não eram só sobre geografia. Elas me ensinavam mais do que consigo transcrever em palavras.


Ao meu ver, não será a sabedoria divina que vai nos guiar rumo à utopia, mas a troca dialética que o processo da vida consciente nos permite. Nosso cérebro é capaz de fazer conexões muito incríveis, mesmo usando muitíssimo pouco da nossa capacidade cognitiva. E pensar na possibilidade de coisas que eu posso aspirar pra esse mundo já me deixa eufórica. Como disse o revolucionário e poeta Maiakovski: “Eu para mim é pouco. Algo se empenha em sair de mim como um louco.” Eu para mim é pouco. Aquilo que podemos ser está além da fronteira do ser individual, está nas relações que podemos constituir com o o(O)utro. Já diria a minha avó, “nenhum ser humano é uma ilha”. Não é mesmo!



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