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  • Talita Gantus

Caminhos

Atualizado: 31 de Mai de 2020

Há pouco mais de um ano atrás eu vim morar sozinha. Sozinha de fato. Saí da casa do meu pai há 12 anos atrás. Mudei do interior de Minas pra morar na capital. Na época eu tinha 18 anos. Deixei um bilhete pro meu pai que dizia "te amo, estou indo atrás dos meus sonhos". Embora eu não tivesse ideia de que sonhos eram aqueles, nunca esqueci o significado desse bilhete. Pra mim e pra ele, que saía mostrando todo orgulhoso pros colegas de serviço, e que me matava de vergonha por tanta exposição. Se tivesse vivo, o envergonhado hoje seria ele, por eu estar expondo tanta gente nesses posts, pra uma sociedade virtual, com regras próprias, que eu mal conheço. Embora eu não soubesse se eram de fato sonhos e ambições ou só uma imensa vontade de sair e viver, só sentia que precisava ir.

Eu disse que carregaria ele comigo e, de fato, carrego. Nem que seja na nossa feição em comum, dos lábios um pouco caídos pra baixo que, quando séria, aparento ser uma pessoa brava e de poucos amigos, uma feição não muito convidativa. Já ouvi comentários do tipo inúmeras vezes, como se fosse algo negativo. Eu ainda não me conformo com o fato das pessoas não aceitarem muito bem mulheres com cara de bravas sem fazerem um comentário não solicitado sobre isso. Mano Brown com seu semblante de que vai matar o próximo com quem cruzar, por sua vez, rende vários memes e nenhuma insinuação tosca.

Outra coisa que carrego do meu pai é o olhar. Esse abismo que inunda as profundezas da alma e que se perde encarando fixamente o nada. E o hábito de repetir as inúmeras histórias infinitas vezes, pras mesmas pessoas. Lembro de me sentir vivendo em loopings nas conversas com meu pai. Tem também a incrível capacidade que temos em comum de começar falando de atracamento de navio e terminar falando de aborto de coruja, na mesma conversa. Isso me lembra os vários ditados que adoro soltar (como se fossem biscoitos da sorte) nos momentos em que me falta outra forma de expressão. Essa genética dos ditados eu herdei da minha mãe. Os que mais gosto são: “águas passadas não movem moinhos” e “só venha a nós, o vosso reino nada” (esse último você pode usar pra quando alguém é meio egoísta, que só faz por si).


Desde que saí, então, da casa do meu pai, morei em 4 cidades e com tanta gente que eu nem me recordo. Tentei, inutilmente, contar com quantas pessoas eu tinha dividido casa ao longo da vida. De fato eu não lembro porque na moradia da universidade (república) eram 10 mulheres ao todo, com uma frequência elevada de entrada e saída. Inclusive, falei recentemente num encontro nosso online - que não deu muito certo, era muita gente numa conversa só, mas foi bem divertido -, que essa república de mulheres foi a minha primeira experiência de sororidade, mesmo que inconsciente.

Era um coletivo de mulheres que se organizava muitíssimo bem (obrigada!), se ajudando, mesmo que cada uma fosse um universo próprio, e bem diferentes umas das outras. Lá, aprendi a trocar chuveiro (embora eu odeie porque tenho medo), a trocar todo o telhado de uma casa, a dar uma festa pra muitas pessoas em que a cerveja esteja sempre gelada, limpar caixa de gordura e capinar um lote. E derrubamos aquela máxima idiota de que “mulher junta só dá confusão”.

Sempre tive a sorte de repartir o teto, um pedaço de chão, comida e a minha vida com pessoas incríveis que carrego comigo, em todas as moradas. Mas de uns anos pra cá eu vinha sentindo uma vontade imensa de morar sozinha. E quando a gente vai morar sozinha de tudo se imagina plena, tomando vinho, cozinhando o jantar só de avental enquanto ouve um vinil. Isso também acontece, mas, na maior parte do tempo, você tá cansada voltando pra casa depois de um dia cheio e lembrando da pilha de louça que acumulou entre o café da manhã e o jantar da noite anterior. E que você vai ter que lavar se quiser cozinhar qualquer coisa.

A sensação que tenho de morar sozinha é a de que, isolada há tanto tempo, eu tenho acumulado muitos silêncios. Não que eu não converse, converso até demais. Eu comigo mesma. Algumas ligações, videochamadas, conversas sem fim no whatsapp. Mas, no fundo, sou só eu na maior parte do tempo. E às vezes isso transborda. Por isso resolvi escrever. Na verdade, eu já escrevia, mas resolvi soltar ao vento. Me expor, pra mostrar que vida real é isso aqui. Esse monte de palavra solta, imagem aleatória, divagações sem sentido e nem propósito.

É incrível como essa massa cerebral dentro da cachola parece ser tão infinita, como aquela coisa maluca que é o universo. Não sei pra você, mas a sensação que eu tenho da morte é a mesma do que seria cair no espaço, do alto de uma montanha ou de olhar pra dentro do mundo imaginário que reside dentro do meu cérebro. Eu só fico perplexa com o tanto que o inconsciente pode ser profundo, como se fosse nosso âmago querendo jogar na nossa cara o melhor e o pior de nós mesmas. Bem maluco tudo isso!

Fico refletindo, divagando, debatendo e tendo conversas despretensiosas sobre várias coisas com meu alter ego. Sabe aqueles insights que você tem fazendo algumas conexões? Daqueles insights em que você grita “eureka” silenciosamente, ou dá aquele que beijinho de leve no ombro? Eu sempre fico pensando “será que eu vou lembrar disso?” Observadora - ao mesmo tempo metódica e ao mesmo tempo avoada - que sou, já fiz essa autoanálise: vou esquecer, com certeza! E aí eu fico com a sensação de que minha mente é esse universo cheio de vácuo onde parece que as coisas se perdem sem fim.

O louco disso tudo é perceber que elas não estão tão perdidas assim. Estão ali, em algum lugar. Não naquelas caixinhas compartimentadas de conhecimento que a gente aprende a vida toda na escola. E na vida mesmo. Também não estão soltas num grande buraco negro. Mas elas estão ali, reverberando em sonhos, epifanias, modos de se relacionar, modos de ver o mundo, na personalidade.

Eu saí da minha cidade natal há 12 anos com sonhos que nem lembro mais quais eram, mas que com certeza não vislumbravam meu eu de agora. Falo muito sobre honrar minha trajetória e isso é uma das coisas top 10 que elenquei sobre autoconhecimento (alguém tem alguma expressão pra substituir o top, nesse caso? Só pro Suassuna não revirar no caixão com a gente: os jovens pós modernos cosmopolitas que falam top, braimstorming, pinkwashing e by the way...).

Meus sonhos se transformam todos os dias, na mesma intensidade com a qual eu me ressignifico. Mas meu eu de hoje, do qual me orgulho, só chegou até aqui pelo caminho que percorreu. E isso, pra mim, é o melhor de nós. Falar sobre a vida pra si pode ser uma ótima terapia!


Foto: Talita Gantus

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