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  • Talita Gantus

Notas diárias de resistência

Acho interessante (pra não dizer intrigada) quando a abordagem das pessoas ao fato de eu estar inevitavelmente isolada sozinha em casa, nesses mais de 5 meses em que se instalou a PANDEMIA MUNDIAL, é “nossa, admiro a coragem, mas eu não aguentaria, eu sou muito social”. Ouvi isso muitas vezes, até pelo fato de eu ter optado não furar a quarentena. Não furei 1) por questão moral: pra mim é meio delicado o fato de ter mais de 1000 pessoas morrendo todos os dias, outras desenvolvendo síndrome pós covid, milhares beirando a miséria, morrendo de frio na rua (não que não existisse antes, mas a pandemia aprofundou e escancarou crises cumulativas) enquanto outras passeiam por aí. 2) se td mundo for exercer o direito de ir e vir, não teremos (como não temos) isolamento, não é mesmo?!


Para além disso, e de toda a ineficiência sistêmica, sistemática e proposital, é um direito adquirido, embora falho em várias instâncias e evidências, eu poder trabalhar de casa, controlar meus horários e dias (na medida em que os prazos e o capitalismo incrustado no meu inconsciente permite), e desenvolver várias atividades que me ajudam a me manter sadia. Digo sadia e não sã. Não é possível se dizer 100% sã em uma sociedade doente, já que somos seres sociais por natureza.


C a atenção para o fato de as pessoas estranharem eu estar sozinha. Como se tivesse sido uma opção pessoal estar confinada em meio a um cenário de crise, várias e diferentes crises, de uma crise humanitária e planetária. Mais me estranha ainda quando dizem “ah eu não conseguiria pq sou muito sociável”. veja, eu tb. E cresci tão permeada por um senso de coletividade e ajuda mútua que eu demorei anos pra encontrar e reconhecer minha subjetividade. Desde as várias primas e primos na infância, as amizades da adolescência, até as moradias estudantis que se iniciaram logo após o meu ensino médio. era tanta mulher dividindo a mesma casa, ao longo de tantos anos, que eu nem sabia direito quem eu era por mim mesma, ou o que eu mesma gostava de fazer. Fui descobrindo isso mais sistematicamente qdo fui fazer meu mestrado em curitiba, em que tive mais espaço pra encontrar comigo mesma, onde tb encontrei pessoas que mudaram minha vida.


Minha vida sempre foi marcada por esses encontros, dividindo ou não teto, ou que me acolhiam numa viagem de visita brasil afora. Sempre esse senso do comum, da partilha permeou meus laços interpessoais. E fizeram de mim uma pessoa muito melhor (com certeza!). O número de pessoas partilhando a vida e o teto foi diminuindo significativamente (variou de 14 a 1, passando por vários números dentro do intervalo).


Quando mudei pra cá eu vim com um desejo enorme de ter a experiência de morar só. E, olha, tem sido incrível. uma das (várias, não vou negar) coisas boas da tal pós-modernidade é a possibilidade do desenvolvimento de subjetividades de uma maneira muito intensa, e também de se vivenciar a família unipessoal (uma pessoa no núcleo da minha casa, meu teto). Bastante revolucionária, aliás, apesar dos pesares do trabalho de reprodução social. Pra ser melhor, eu diria que precisamos desenvolver mais o senso de coletividade entre vizinhos que o cidadão privado e a família nuclear capitalista nos sequestra. Muito patriarcal isso, diga-se de passagem!


Morar só torna-se uma prática revolucionária quando se aproveita o espaço de desenvolvimento das potencialidades e se abre, ao mesmo tempo, à possibilidade do retorno a si.


Sempre fui muito presente nos espaços públicos, sempre gostei de bater perna na rua, sinto falta de pedalar pela cidade, das aulas de yoga na praça, das aulas de tecido (que eu tinha acabado de começar antes da pandemia) pendurada na árvore, das rodas de capoeira que descobri por aqui, dos forrós, de rodar na feira de artesanato de sábado e ver as mesmas coisas de todos os outros sábados, e ainda assim ser capaz de amar sempre e cada vez mais os mesmos detalhes (em todos os lugares por onde passei), da experiência de rodar de ônibus pela cidade inteira qdo ia dar aulas. sinto mta falta. somos seres sociais mesmo. A gente tá assim até hoje, se descabelando e verde pela falta de vida lá de fora, pq em nenhum momento o isolamento de fato começou.


Não tem sido fácil por aqui e a falta de viver o mundo externo acaba sendo atropelada pela não vivência da ciclicidade, das estações (embora o frio tenha chegado bem duro por aqui), das fases da lua, das variadas cores dos ipês, das árvores frutíferas espalhadas pela cidade, da cor do pôr do sol intensificada no outono… A falta do mundo lá fora nos parece cegar ao olhar atento e ao sentimento desperto à ciclicidade da vida, tb presente em nós, mesmo que mundana e obsoleta para uns. Me perdi dos ciclos. A falta de viver o mundo externo me cega às vezes, inconscientemente. E isso me deixa um pouco triste. Mas, Natureza que sou e que somos e que ela é, vem, providencial, me lembrar, embora às vezes eu esqueça (relembrar é um constante exercício). A ciclicidade da minha mandala lunar vem, instintiva e inesperada (já que negligenciada), mesmo que ignorado o calendário de papel, me lembrar. Nesses momentos de lua nova, durante a fase lútea, eu passo batom forte. Ainda que usando moletom, alguns dias desse período me suscitam esse desejo. Foi uma constatação processual ao longo desses anos de caminhada de encontro ao sagrado. Uma das. Acho isso muito curioso! Os dias do batom foram um desses dias. Foram, também, momentos de renascer como fênix. Esse encontro com minha própria natureza tem sido essencial pra passar por esses momentos difíceis que tem sido a vivência nessa sociedade ensandecida sem as válvulas de escape que tínhamos antes. Saudade trilhas, saudade cachoeiras, saudade praias.


Ei, vc, não tem sido fácil por aqui também não, mas acredito que pra ninguém que sente mais que racionaliza tem sido fácil. Dentre todas as infinitas coisas que eu vivenciei e experienciei nesses meses, a mais potente foi a liberdade da minha ciclicidade-natureza. mesmo desconectada do mundo lá fora. E a poesia. E a escrita tb! Por isso escrevo. E posto aqui para quem quiser ler pequenos resumos de registros diários de uma tentativa incessante de libertação desse sistema. Se cuidem por aí!


Muros de Recife, Pernambuco.

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