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  • Talita Gantus

Por um feminismo para a maioria

Atualizado: 3 de Jun de 2020

O feminismo não é uma ascensão de mulheres enquanto indivíduos, não é um empoderamento pessoal, é uma luta social e coletiva contra as estruturas de opressão. O feminismo para os 99% parte da premissa de que defendemos todas as pessoas que são exploradas, dominadas e oprimidas pelo 1%.


O feminismo segregador, liberal, meritocrático, centrado no Norte Global e que se transveste de progressista enquanto coloca mulheres como CEO’s de empresas capitalistas (as quais massacram a classe trabalhadora), torna-se parte do problema de opressão. Essa corrente se recusa a tratar das restrições socioeconômicas que tornam a liberdade e o empoderamento impossíveis para uma ampla maioria de mulheres, as que pertencem aos 99%. Para mulheres pobres, a igualdade salarial significa igualdade na miséria.


A organização social se baseia no gênero: ela depende do papel de gênero e entrincheira-se na opressão de gênero. Essa forma de organização se estabelece numa relação intrínseca com o modo de produção econômico; pois, o que produz a classe na sociedade capitalista não são apenas as relações que diretamente exploram a ‘mão de obra’, mas também as relações que a geram e repõem. Aquela que cria o exército de reserva de que Marx falava, e que faz com os trabalhadores sejam facilmente repostos e com que sua força de trabalho custe cada vez menos (“se você não quer esse emprego miserável, tem quem queira!”).


Com isso, a classe capitalista consegue extrair cada vez mais lucro às custas da exploração de corpos - que tombam, desgastados com esse modo de vida sem propósito. Tombam por estarem cansados desse corre louco da vida, de horas estafantes num trabalho alienado, pegando horas de condução, e que nem assim conseguem garantir o mínimo pra uma vida digna.


Enquanto o sistema capitalista exige mais horas de trabalho remunerado por unidade familiar e menos suporte estatal à assistência social, ele pressiona até o limite comunidades, famílias e, sobretudo, mulheres. Elas trabalham fora, muitas vezes em subemprego, cuidam da casa, dos filhos, cozinham, lavam, passam, e ainda são cobradas à produzirem. Como se esse trabalho de reprodução social não fosse vital para o funcionamento da sociedade.

Quais mulheres seguem gentrificadas e marginalizadas nos feminismos? Continuaremos a buscar oportunidades iguais de dominação em um planeta que queima, arde e grita pedindo ajuda?


O capitalismo não inventou a subordinação das mulheres, nem da população negra, mas ele se retroalimenta dessas estruturas de dominação e opressão, e estabelece outros modelos de sexismo e racismo, sustentados por novas estruturas institucionais. Como o próprio Estado, que exclui mulheres dos espaços públicos: simbolicamente - quando não garante que ela transite de modo seguro pelas ruas, confinando-a em casa - ou materialmente - quando impõe à ela o papel de reprodução social da família. Como, ainda, o mesmo Estado que promove o massacre da população negra, estigmatizada pelo código postal que marca a pele negra. Nas favelas, nas periferias, a polícia antes atira pra matar, e depois procura saber quem foi a vítima. Se é que procura. Mulheres mães negras já acordam angustiadas por viverem em uma sociedade que não permite que seus filhos existam sem resistir.

A violenta pilhagem colonial não foi interrompida quando o capitalismo se transformou. A expropriação racial de povos privados de liberdade ou dependentes serviu como condição oculta para possibilitar a exploração lucrativa do “trabalho livre”. Com isso, o capital aumenta seus lucros por meio do confisco de recursos naturais e capacidades humanas por cuja renovação e reprodução ele nada paga.


A atual crise do capitalismo também é uma crise ecológica, já que o sistema trata o planeta como mercadoria e os recursos naturais como gratuitos e infinitos. Mais uma vez, as mulheres estão na linha de frente. Elas constituem 80% das refugiadas climáticas. Além do racismo ambiental, que oprime duplamente as mulheres negras.


O capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas um modo de produção que institui uma ordem social institucionalizada que abrange relações práticas e que mantêm a economia oficial.

O capitalismo nos priva da capacidade de decidir de forma coletiva o que e quanto produzir, sob qual base energética e por meio de quais tipos de relações sociais. Ele também nos impede de decidir como queremos usar o excedente que produzimos coletivamente. Esse excedente, na realidade, representa o lucro que enriquece carteiras financeiras de uma minoria. Eles extraem recursos naturais, exploram a mão de obra da classe trabalhadora, dão-nos o suficiente para nos manter trabalhando e a engrenagem girando, e ficam com o restante. A famigerada ‘mais-valia’.


Esse sistema é uma máquina de moer gente que sequestra nossa possibilidade de escolha do modo como nos relacionamos com a natureza e com as gerações futuras. Ele rouba nosso presente, nosso tempo de vida e nossa possibilidade de futuro. E ainda se diz democrático! Democrático pra quem? Pro jovem negro da favela que morre dentro de casa? Pra criança negra que morre com 80 tiros por engano? Pra mãe negra que teme pela vida dos filhos todo santo dia em que acorda? Por que a gente luta pra manter essa democracia injusta e desigual?


Não é possível que nosso feminismo continue deixando corpos pelo chão, corpos negros, filhos de mães negras. Nosso feminismo precisa ser antirracista, contra a militarização da vida e o genocídio da população negra que acontece, em especial, pelas mãos do Estado.

Nosso feminismo não pode prescindir de lutar pelo bem viver, pela justiça ecológica e ambiental e pela superação da dicotomia humano x natureza, uma herança colonialista que transforma a Terra em mercadoria. Como se caixão tivesse gaveta e como se não estivéssemos aqui só de passagem...


A luta precisa ser por educação gratuita de alta qualidade, serviços públicos amplos, habitação de baixo custo, direitos trabalhistas, sistema de saúde gratuito e universal.


Por um mundo sem racismo, sem xenofobia, sem guerra, sem genocídio, sem opressão!

Inspirada por: Feminismo para os 99% - um manifesto (Arruza, Bhattacharya, Fraser)


Foto: Sue Cassimiro

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