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  • Talita Gantus

Recolhendo meus cacos

Atualizado: há 4 dias

Não tenho apego às coisas materiais. Quando minha mãe faleceu eu doei praticamente tudo que era dela. Pra familiares ou pra pessoas que nunca vi. Doei porque não queria conviver com aquelas coisas materiais que me fariam ter recordações que eu não queria ter. Não naquele momento. Essa foi a forma que encontrei de superar a dor dessa perda: não lembrando dela .


Foi uma forma muito problemática pro meu eu de hoje, eu sei, mas foi o que fiz pra sobreviver no auge da minha adolescência. Eu tinha 16 anos e era bem chata. Como adolescentes com hormônios à flor da pele são. E, claro, com todas as ansiedades que a sociedade e, consequentemente, nossa família colocam sob a gente... "E aí, será que essa menina vai desandar?! E aí, será que ela vai querer fazer faculdade?! E aí, já escolheu o curso que vai ditar sua profissão pro resto da vida e pelo qual você não pode se arrepender nunca mais e trocar?!"


Até porque, tem aquele padrão que a gente precisa seguir pra ser aceito pela sociedade. Se mulher, casar antes dos 30, com um homem, ter filho até, no máximo, 35, porque senão o corpo começa a dificultar. Comprar um carro assim que começar a trabalhar. Ser bem sucedida no trabalho antes dos 40. Se você é uma jovem de cerca de 30 anos pra cima, você deve ter sentido essa pressão em algum momento da vida. A não ser que você tenha crescido numa família super desconstruída e que seus pais tenham ido no woodstock. Muito provavelmente, se não sofreu na família, sofreu essas “cobranças” pela sociedade que foi estruturada nesses princípios.


Doei quase tudo que minha mãe tinha e com certeza eu faria diferente se fosse hoje. Com 16 anos eu nunca imaginava que, aos 30, estaria solteira, substituindo filhos por plantas, morando numa kitnet (que pelo menos tem um quintal), trabalhando sem CLT, e usando as roupas que minha mãe usava na década de 90. E com o com o cabelo cortado rente à cabeça, que nem o dela.


Meu desapego, naquela época, era pra me blindar do passado. Hoje, ele serve pra me blindar do futuro. Não tenho muitas roupas, tenho pouquíssimos sapatos e alguns livros que faço questão de carregar pra onde vou. Alguns ficam pra trás, outros saem emprestados e nunca voltam. Faço um ritual com as cartas que ganho: leio, agradeço, lanço amor pro universo, guardo no fundo do meu coração e dispenso. O papel vai pro lixo mas a mensagem é transmitida pra minha caixinha de memórias na cabeça. Mas tudo vai seguindo seu fluxo circular.

Ah, e tem a vitrola da minha mãe, os vinis da família e o álbum de fotos, que fiz questão de recuperar nas bagunças da minha vó. E que bom que a Talita dos 16 não foi tão boba a ponto de passar isso pra frente.


Esse meu desapego de hoje me blinda do futuro porque eu tenho uma ansiedade muito grande de pensar onde eu vou morar no final dessa etapa da minha vida (que também não sei quanto tempo vai durar). Eu não quero pensar nisso simplesmente porque só quero viver. É um sentimento do qual eu nunca ouvi falar, como uma atenção sem esforço, uma sede de só ser, uma vivência de um presente no qual a Talita dos 16 jamais apostaria as fichas. A Talita dos 16 pensava que aos 24 estaria batendo cartão numa empresa de 8 às 17h (embora ainda não tivesse escolhido o curso), voltando do trabalho de carro pro apartamento que teria acabado de dar entrada. Ela acharia a Talita de hoje a concepção de ser humana falida, sem sucesso. Ainda bem que a Talita de hoje honra seu passado e ama seu presente, mesmo se arrependendo de ter doado todas as roupas da mãe dela.

Todas as casas em que morei ao longo desses 12 anos, depois de sair da minha cidade natal, eram (incrivelmente) bem equipadas. E isso é algo inexplicavelmente interessante quando se muda muitas vezes. Quando cheguei onde moro hoje, uma kitnet totalmente mobiliada mas que não tinha utensílios de cozinha, passei duas semanas com uma cuscuzeira, uma chaleira, uma cumbuca e uma colher de plástico que eu levo pra acampar, um jogo de facas, um mini processador e uma frigideira de teflon. Ah, e um abridor de vinhos que me evita quebrar rolhas (quem não cozinha vai achar que é muita coisa).


Um ano depois, obviamente, eu tenho uma cozinha mais equipada, já que tenho uma veia cozinheira que herdei de família. Mas o desapego me coloca a passar várias coisas pra frente na mudança seguinte, quando meus acúmulos deixam de caber nas malas que tenho. É que só assim é possível mudar de estado carregando as malas no transporte coletivo. Sim, a Talita dos 30 mudou de cidade 4 vezes (e de casa 9) carregando as malas e as caixas de livros em ônibus - a Talita adolescente ficaria decepcionada.


Minha cozinha é minúscula e eu tenho coisas ao pares ou aos trios. O que significa que tenho limitações para receber muitas pessoas com um jantar. Não que eu fosse dar uma festa na minha casa, até porque, não cabem mais de 4 pessoas ao mesmo tempo. Sendo as 4 no quarto sentadas na cama. Isso me deixa um pouco chateada porque eu sempre amei receber pessoas em casa. Mas tudo bem, não fiz tantos amigos aqui assim (outra constatação da vida adulta: é mais difícil fazer amizades para as quais você esquentaria a barriga no fogão).

Mas minha kitnet é linda o suficiente já que me atende maravilhosamente bem e me faz sentir um pouco mais dona de mim, pois é assim que consigo morar só. Caso contrário, eu teria que escolher entre pagar o restante dos boletos ou ter mais espaço.


Estava faxinando minha cozinha e todas essas lembranças e pensamentos transbordaram porque eu quebrei uma das duas canecas que ganhei de presente. Eu só tinha duas canecas. Mas a que quebrou não era uma caneca qualquer. Era uma caneca de Recife que ganhei 4 anos atrás de uma senhora recifense que ficou hospedada na minha casa em Ouro Preto. Eu recebi essa senhora por uma plataforma de hospedagem, nunca a tinha visto antes, mas aquela caneca, com desenhos de sertanejos tocando sanfona, triângulo e dançando, foi amada à primeira vista. De verdade!


Minha irmã mais velha mora no interior de Pernambuco há 18 anos. Desde os meus 16, eu visito meus sobrinhos e ela todos os anos. Já fui pra lá de carro, ônibus, avião, ônibus + balsa, mas não deixei de ir nenhum ano. Sempre que vou tento conhecer um pouco mais do nordeste (que consiste em infinitas possibilidades).


Eu amo todo o chão nordestino pelo qual eu já pisei, mas tenho um carinho diferentemente especial por Pernambuco. Porque é onde passo a maior parte do tempo sempre que vou, e porque boa parte da minha família tem raízes lá (já que não tenho uma família tão grande assim). E porque é Pernambuco! Me faltam formas de dar vazão ao que sinto quando estou lá e pelo amor que tenho por toda a cultura pernambucana que absorvo, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.


Aquela caneca era a minha forma de estar mais perto do nordeste. E ela estava despedaçada aos meus pés. Aos pés da Talita desapegada. Fiquei profundamente triste. Aquela caneca havia me acompanhado em 4 das minhas 9 casas, experienciado momentos fraternos e calorosos de chás e cafés que embalaram dias e noites. E todo esse pensamento aqui narrado me veio à tona ao ver os cacos no chão. Gostaria de fazer menos conexões e ter menos recordações me voltando à mente em momentos inesperados como esse, mas minha cabeça regurgita pensamentos como se fossem refluxos contínuos. São momentos em que eu me sinto eriçada pela densidade do que é viver.


Mas, é isso, essa é a Talita de sempre.

Tentei esquecer tantas recordações e voltar à faxina. Mas era inútil. Parecia que a contiguidade dos fatos os ligava, como se não houvesse mais nenhuma recordação entre o momento da caneca quebrada e todo esse filme e constatações de mim me


sma que vivenciei nesses parcos minutos. Os dois fatos tinham um nexo ilógico.


Meu eu desapegado se sentiu traído. Larguei a faxina, busquei minha irmã (lá no interior de Pernambuco) e narrei o acontecido, fazendo questão de frisar a tristeza na qual eu me encerrava. Ela, assumindo o papel de uma leitora observadora, me disse calmamente: "cola os cacos e usa a caneca pra outra coisa!".


Foi quando uma esperança repentina tomou conta de mim: não se muda o passado, mas o futuro se constrói pelo presente, com os acúmulos do que se viveu.


Colei a caneca e plantei nela alecrim!

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