Buscar
  • Talita Gantus

Travessias de fim de ano

O calendário gregoriano pouco ou nd tem a ver com passagens e ciclos naturais do curso da vida. Os meses não são marcados pelos ciclos lunares, o ano se encerra sem nenhuma conexão com as estações, e traz a marca de um novo número que não significaria nada, não fosse a soberana necessidade humana de nomear, contar, se apossar. Fui surpreendida certa vez ao descobrir que o Meridiano de Greenwich, marcador do fuso horário, delimitado pra facilitar trocas mercantis, poderia ser chamado Meridiano de Manhuaçu caso o 0° começasse aqui na cidade onde nasci. E, claro, se a potência imperialista do período colonial não fosse a Inglaterra, onde é Greenwich. Talvez nem teríamos meridianos e trópicos se não existisse colonização. Talvez com certeza a vida seria bem diferente e não vivêssemos pandemias e mudanças climáticas. Mas não sou pessoa de se, embora tenha me tornado alguém com tantas dúvidas que soterram minhas parcas certezas que agora cabe talvez e com certeza na mesma frase. 2020 me trouxe poucas garantias, muitas dúvidas, anseios e um desejo genuíno de me agarrar à vida. Não qualquer vida. Por muitos motivos - além dos materiais e concretos, aqueles que moram só na minha mente. Tenho um imaginário muitíssimo fértil. E, sendo bom pq de mim brotam ideias mirabolantes de construir situações melhores, é ruim a arte de criar fantasias que me paralisam de medo. Descobri em análise que preciso de garantias, nem que sejam tratados por meio de palavras, mas a palavra pra mim sempre valeu mais que dinheiro. Afinal, foram elas que serviram de bóia quando eu parei de dar pé no rio da vida. Quando perdi o ânimo de escrever pra dar vazão ao que em mim transborda, minha salvação veio ao descobrir o poder curativo da elaboração discursiva do Eu. Não do imaginário que tinha de mim mesma, mas um pouco mais perto do tutano do Eu. A vida segue seu ciclo, e, independente se a gente mude 1 algarismo no fim dessa contagem, o que nos incomoda não vai mudar se aceitarmos a inércia. Se a metáfora da vida é o rio, não precisamos nadar contra a corrente, mas há uma grande diferença entre cair na água como uma tábua e como um peixe. Sigo nadando e me agarrando às palavras como resgate. Axé e taiobas!

Na roça da minha tia Celma, região do Guarani, MG.

31 de dezembro/2021

8 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Janelinha

Pessoa